Santas Heroínas
Eis dois vultos eminentes entre as heroínas do Cristianismo da Igreja dos primeiros séculos, dignas de louvor e admiração, por causa de sua constância e firmeza imperturbável na fé. Seu martírio coincide com o governo do imperador Severo e teve por teatro, provavelmente, a cidade de Cartago.
Origem das Santas Perpétua e Felicidade
Perpétua, de família nobre, contava apenas 22 anos. Seus pais eram vivos ainda quando viram morrer sua filha. De dois irmãos que teve, um era catecúmeno e o outro menor tinha morrido, vitimado por câncer no rosto. Perpétua era a predileta de seu pai, ainda pagão. Casada havia pouco tempo, tinha um filhinho de poucos meses.
Felicidade era de família menos nobre. Jovem, casada, achava-se no sétimo ou oitavo mês de gestação quando o juiz romano a citou perante o tribunal.
Testemunho de fé inabalável
Quando o pai de Perpétua soube da prisão de sua filha, sem demora a procurou e tratou de afastá-la da religião de Cristo. Perpétua, porém, declarou-lhe que era cristã e, como cristã, havia de morrer. Poucos dias depois recebeu ela, com outras catecúmenas, o santo Batismo.
Tendo dito isto, beijou-lhe as mãos, prostrou-se aos seus pés, chamando-a não de filha, mas de soberana. Foram momentos terríveis para o coração da filha. Vendo-se colocada entre o dever e o amor filial, consolou o pai com a lembrança da divina Providência.
No dia seguinte, as duas companheiras de martírio foram conduzidas à presença do juiz Hilariano e intimadas a sacrificar às divindades, intimação que resolutamente rejeitaram. Aludindo ao nome de Felicidade, o juiz perguntou:
— Onde está a Felicidade?
Esta respondeu:
— Neste mundo ela não existe.
Interpelada sobre sua origem e família, informou:
— Não tenho pai nem mãe, e os meus companheiros de martírio, que vês junto de mim, são os meus parentes mais próximos.
O juiz chamou-lhe a atenção sobre o seu estado de gravidez, pedindo-lhe que tivesse pena do fruto de suas entranhas.
— Sou cristã — respondeu Felicidade — e, como tal, obrigada a desprezar tudo por amor de Deus.
Uma revelação de caráter sobrenatural não a deixou em dúvida sobre seu futuro, que era a morte gloriosa pela fé.
Na véspera de seu julgamento, teve outra visita de seu pai, o qual, pela segunda vez, tentou mudar a resolução da filha.
— Minha filha — disse-lhe ele — tenha dó de minhas cãs; compadece-te de teu pai, se me queres dar a honra deste nome; não envergonhes minha velhice perante a sociedade. Lembra-te de meus cuidados e do amor que te distinguiu entre teus irmãos. Lembra-te de teus irmãos, de tua mãe e de teu filhinho que, sem ti, não poderá viver. Curva tua altivez e não sejas temerária.
Perpétua teve-se com a mesma firmeza. Outra vez apresentou-se o pai, que, em combinação com o juiz, apelou novamente para seus sentimentos filiais e maternos. Imóvel como um rochedo no mar, Perpétua confessou sua fé inabalável em Jesus Cristo.
Vendo baldados todos os esforços em demover os mártires de suas ideias, o juiz ordenou a aplicação de crudelíssima flagelação. Depois de alguns dias, deviam ser atirados às feras. Dúvidas surgiram por causa do estado de Felicidade, pois as leis romanas proibiam a execução de mulheres em semelhantes circunstâncias.
Perpétua e suas companheiras de martírio pediram a Deus que desse solução ao caso. Felicidade deu à luz uma criança, que foi entregue aos cuidados de uma sua irmã.
Quando Felicidade, em seus sofrimentos, se desabafava em altos gemidos, um dos carcereiros lhe disse:
— Se não tens força para sofrer isto agora, que será de ti na presença das feras?
Felicidade respondeu-lhe:
— Agora estou sofrendo, entregue a mim mesma; naquele dia, porém, estará em mim Alguém outro, que sofrerá em meu lugar, porque é por Ele que sofrerei.
Vida entregue por amor a Cristo
Estas palavras significativas veem-se realizadas na vida de todos os mártires. Quem sofre e dá a vida por Deus e pela fé experimenta, na hora suprema, uma força e um sossego que os pecadores não podem imaginar.
Estava marcado para a execução o dia 7 de março, aniversário do imperador Geta. Longe de aparentar tristeza, desânimo e temor, os santos mártires se apresentaram com semblantes alegres, como se fossem a um festim. Felicidade, poucos dias antes tão fraca e abatida, qual heroína triunfadora foi ao encontro das feras que a esperavam na arena.
O porte nobre de Perpétua causou admiração geral. À intimação de envergar vestimentas sacerdotais pagãs, como era costume no anfiteatro, os mártires se opuseram energicamente. Perpétua, fazendo-se intérprete dos sentimentos de seus companheiros, disse:
— Estamos aqui de livre vontade. Morremos para salvar a liberdade de nossa fé. Morremos, sim, mas com a condição de não sermos obrigados a seguir vossas praxes supersticiosas. É este o contrato que fizestes conosco.
Esta declaração franca e corajosa envergonhou os pagãos, que não importunaram mais os mártires com semelhantes imposições.
Passando perto do juiz Hilariano, disseram-lhe:
— Tu nos condenaste; pois fica sabendo que Deus te julgará.
A multidão, irritada com esta suposta injúria, exigiu em altos gritos um castigo exemplar, que imediatamente foi aplicado em forma de vergastadas. Afinal, foram conduzidos à arena.
A primeira vítima foi Saturo, atirado a um leopardo, que de tal maneira o feriu que foi literalmente batizado em seu próprio sangue. Suas últimas palavras dirigiu-as ao carcereiro Pudeo, dizendo-lhe:
— Adeus, meu irmão, lembra-te de minha fé. Tenha coragem.
Dizendo isto, tirou do dedo um anel, deu-lho como lembrança de seu martírio e morreu.
Perpétua e Felicidade, em obediência ao costume, deviam ser despidas e atiradas a uma vaca brava. O povo, porém, atendendo às circunstâncias especiais, exigiu que se lhes desse algum agasalho.
Perpétua foi a primeira vítima da fera. Vendo que o pano que lhe tinham dado para resguardá-la da nudez havia-se rasgado, cobriu-se de novo. Mais se preocupava com a virtude do que com o martírio. Também se esforçou para pôr em ordem o cabelo desgrenhado e desalinhado, pois achava não ser conveniente a uma mártir apresentar-se naquele estado, que parecia indicar tristeza e desânimo.
Depois pôs-se em pé e estendeu a mão a Felicidade para se levantar também. Estavam assim de pé as duas heroínas, e os algozes não se atreveram mais a atirá-las novamente às feras, mas conduziram-nas a outro lugar, onde deviam ser executadas pela espada.
Ao lado de Perpétua ia um catecúmeno. Como acordando de um profundo sono, ou voltando a si depois de um êxtase, olhou para as pessoas que estavam perto, como alguém que está fora de si, e perguntou:
— Onde está a vaca brava? Não seremos mais atirados a ela?
Disseram-lhe que já tinha combatido com a fera. Mas só deu crédito quando lhe mostraram, em seu corpo, os sinais do cruel encontro, e quando o catecúmeno Rústico lhe confirmou o que os outros tinham dito.
Havia no anfiteatro um lugar onde costumavam ser conduzidas as vítimas que sobreviviam ao encontro com as feras. Gladiadores as esperavam para lhes dar o golpe de misericórdia com o punhal ou estrangulá-las. Para lá seguiram Perpétua, Felicidade e seus companheiros.
O povo, porém, ávido de ver sua morte, reclamou que fossem executadas na arena. Ouvindo a vozeria tumultuosa, as mártires se levantaram do chão onde estavam assentadas e se dirigiram bem ao centro do anfiteatro.
Pela última vez se abraçaram e beijaram, coroando assim seu martírio com caridade e amizade. Sem dizer palavra, sem um grito ou gemido, todas caíram sob os golpes dos verdugos.
Perpétua, porém, sentindo-se mal ferida, soltou um grito, agarrou a mão trêmula do assassino inexperiente e levou-a à garganta. No mesmo momento caiu mortalmente ferida, com a carótida cortada.
Esta cena deu-se no dia 7 de março, na cidade de Cartago. No século V, foram os corpos das mártires encontrados na catedral da mesma cidade.
Reflexões para os dias de hoje
Que exemplo heroico de virtude não vemos no martírio de Santa Perpétua e de sua companheira Felicidade! Que necessidade tinham elas de se sujeitar a sofrimentos tão atrozes numa idade em que a natureza convida a gozar?
Fácil lhes era fugir da perseguição; fácil evitar o bárbaro martírio que as vitimou. Mas nenhum momento hesitaram em fazer o sacrifício de sua vida, dando a Deus a mocidade com todos os bens e prazeres que do mundo poderiam esperar.
Todas as idades pertencem a Deus; em todas as idades o homem deve servir a Deus. Não é generoso nem justo para com Deus quem dá ao mundo os dias da mocidade, reservando-Lhe apenas o fim da vida.
Quem não aprendeu a ser piedoso e virtuoso na infância e na mocidade dificilmente o será na idade madura.
Se Jesus Cristo sacrificou sua infância e mocidade por nosso amor, não merece Ele que Lhe retribuamos Seu amor com nossa gratidão, santificando nossa mocidade e consagrando-a ao Seu santo serviço?






























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